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A SÍLICA
Introdução
O termo sílica refere-se aos compostos de dióxido de silício,
SiO2, nas suas várias formas incluindo sílicas cristalinas;
sílicas vítreas e sílicas amorfas. O dióxido de silício, SiO2, é o
composto binário de oxigênio e silício mais comum, sendo inclusive
composto dos dois elementos mais abundantes na crosta da Terra. A
sílica e seus compostos constituem cerca de 60% em peso de toda a
crosta terrestre.
Os depósitos de sílica são encontrados universalmente e são
provenientes de várias eras geológicas. A maioria dos depósitos de
sílica que são minerados para obtenção das "areias de sílica"
consistem de quartzo livre, quartzitos, e depósitos sedimentares
como os arenitos.
O quartzo é um mineral de natureza dura, inerte e insolúvel.
Suporta totalmente a vários processos de ação de agentes
atmosféricos (intempéries) e é encontrado desde traço até grandes
quantidades em várias rochas sedimentares. Ele é o componente
principal dos solos, variando de 90 a 95% das frações arenosas e
siltosas de um solo. A areia é composta predominantemente de
quartzo.
Comercialmente, a sílica é fonte do elemento silício e é usada em
grande quantidade como um constituinte de materiais de construção.
A sílica também possui numerosas aplicações especializadas, como
cristais piezoelétricos Na sua forma amorfa é utilizada como
dessecante, adsorvente, carga e componente catalisador. Na sua
forma vítrea é muito utilizada na indústria de vidro e como
componentes óticos. Sílica é um material básico na indústria de
vidro, cerâmicas e refratários, e é uma importante matéria prima
na produção de silicatos solúveis, silício e seus derivados
carbeto de silício e silicones.
Pela sua abundância na crosta terrestre, a sílica é largamente
utilizada como constituinte de inúmeros materiais. Desta forma,
trabalhadores podem ser expostos a sílica cristalina em uma grande
variedade de indústrias e ocupações. No Quadro 1 apresentam-se
exemplos de indústrias, operações e atividades específicas onde
podem ocorrer exposição ocupacional a sílica livre cristalina.
Sílica cristalina refere-se a um grupo mineral no qual a sílica
assume uma estrutura que se repete regularmente, isto é uma
estrutura cristalina.
Oito diferentes arranjos estruturais (polimorfos) do SiO2 ocorrem
na natureza, no entanto sete dentre esses são mais importantes nas
condições da crosta terrestre: a-quartzo, cristobalita, tridimita,
moganita, keatita, coesita e stishovita.
As três formas mais importantes da sílica cristalina, do ponto de
vista da saúde ocupacional são o quartzo, a tridimita e a
cristobalita. Estas três formas de sílica também são chamadas de
sílica livre ou sílica não combinada para distingüí-las dos demais
silicatos.
Quadro 1 Ramos de atividade onde podem ocorrer exposição
ocupacional a sílica livre cristalina.
| Industria/atividade |
Operação específica/tarefa |
Fonte do material |
| Agricultura |
Aragem, colheita, uso de máquinas |
Solo |
| Mineração e operações relacionadas ao beneficiamento do
minério |
A maioria das ocupações (em baixo da terra, superficial,
moinho) e minas (metal, não metal, carvão) |
Minérios e rochas associadas |
| Lavra/extração e operações relacionadas com o
beneficiamento do minério |
Processo de trituração de pedra, areia e pedregulho, corte
de pedra, abrasivo para jateamento, trabalho com ardósia,
calcinação da diatomita |
Arenito, granito, pedra, areia, pedregulho, ardósia,
terras diatomáceas, pedra. |
| Construção |
Abrasivos para jateamento de estrutura, edifícios.Construção
de alto estrada e túneis.Escavação e movimentação de
terra.Alvenaria, trabalho com concreto, demolição. |
Areia e concreto.RochaSolo e rochaConcreto, argamassa e
reboque. |
| Vidro incluindo fibra de vidro |
Vidro incluindo fibra de vidro |
Areia, quartzo moídoMaterial refratário. |
| Cimento |
Processamento da matéria prima |
Argila, areia, pedra calcaria, terras diatomáceas. |
| Abrasivos |
Produção de carbeto de silícioFabricação de Produtos
Abrasivos |
Areia, tripoli e arenito |
| Cerâmicas, incluindo tijolos, telha, porcelana sanitária,
porcelana, olaria, refratários, esmaltes vitrificados. |
Misturas, moldagem, Cobertura vifriticada ou esmaltada,
acabamento. |
Argila, pedra, areia "Shale"Quartzito, terras diatomáceas. |
| Fabricação de ferro e aço |
Fabricação (manipulação) de refratários e reparos em
fornos |
Material refratário |
| Silício e ferro-silício |
Manuseio de matérias primas |
Areia |
| Fundições (ferrosos e não ferrosos) |
Fundição da peça, choques para retirada da peça do
molde.Limpeza da peça que encontra-se com areia aderida na
superfície. Uso de abrasivo. Operações de alisamento/aplainamento.Instalação
e reparo de fornos. |
AreiaAreiaMaterial refratário. |
| Produtos de metal, incluindo metal estrutural, maquinaria,
equipamento de transporte. |
Abrasivo para jateamento |
Areia |
| Construção civil e manutenções (reparos) |
Abrasivo para jateamento |
Areia |
| Borrachas e plásticos |
Manuseio de matéria prima |
Funis alimentadores (tripoli, terras diatomáceas) |
| Tintas |
Manuseio de matéria prima |
Funis alimentadores (tripoli, terras diatomáceas, sílica
flour) |
| Sabões e cosméticos |
Sabões abrasivos, pós para arear |
Sílica flour |
| Asfalto e papelão alcatroado |
Aplicação como enchimento e granulado |
Areia e agregado, terra diatomáceas. |
| Substâncias químicas para a agricultura |
Trituração e manuseio de matérias primas. |
Minérios e rochas fosfáticas |
| Joalheria |
Corte, esmerilhar, polimento, lustramento |
Gemas semi-preciosas ou pedras, abrasivos |
| Material dental |
Areia abrasiva, polimento |
Areia, abrasivos |
| Reparos de automóveis |
Abrasivo para jateamento |
Areia |
| Escamação de "boiler" |
"Boiler" com queima de carvão |
Cinza e concreções. |
Fonte: IARC 1997
Sinônimos, nomes comerciais e
fórmula
Número de registro CAS (Chemical Abstrat Service): 7631-86-9
Nome químico: Dióxido de silício
Fórmula molecular: SiO2.
Sinônimos: Cristalina: coesista, cristobalita, jasper, sílica
microcristalina, quartzo, quartizito, entre outros. Amorfa: Sílica
coloidal, terra diatomácia, diatomita, sílica "fumed" sílica fused,
opala, sílica gel, sílica vítrea, entre outros
Nomes comerciais: Cristalina: BRGM, D&D, DQ12, Min-U-Sil,
Sil-Co-Snowit. Amorfa: Aerosil, Celite, Ludox, Silcron G-910.
Origem e classificação
Origem: Mineral, biogênica ou sintética
Classificação:
a- formas cristalinas
natural - , ß quartzo; , ß1, ß2, tridimita; , ß cristobalita;
coesita;
stishovita; moganita, keatita.
sintética - keatita; sílica W; porosils
b- formas amorfas
natural - opala; sílica biogênica; terras diatomácias; fibras
de sílica;
sílica vítrea.
sintética - sílica fundida; pirogênica ou sílica evaporada;
sílica precipitada;
sílica coloidal; sílica gel.
c- Rochas contendo sílica (>90% de SiO2)
quartzito, quartzo arenito, diatomita, porcelanita, sílex
córneo, gueiserita
(Fondel,1962; Coyle, 1982; Flörke&Martin,1993)
O -Quartzo é a forma termodinamicamente estável da sílica
cristalina nas condições ambientais A grande maioria da sílica
cristalina natural existe como a-quartzo. As outras formas existem
num estado metaestável. A nomenclatura usada é "a" para uma fase
de baixa temperatura e "ß" para uma fase de alta temperatura. A
estabilidade dos polimorfos da sílica está relacionada com a
temperatura e a pressão. Polimorfo é um termo usado para descrever
materiais com diferentes arranjos atômicos cristalinos mas de
mesma composição química. O -quartzo é o mais estável nas
temperaturas e pressões que caracterizam a crostra terrestre. A
tridimita e cristobalita são formadas sob altas temperaturas,
enquanto coesita e stishovita são formadas sob altas pressões.
Estrutura e ligações químicas
A unidade estrutural básica da maioria das formas da sílica e
dos silicatos é um arranjo tetraédrico de 4 átomos de oxigênio ao
redor de um átomo de silício centralizado, silício tetraédrico,
SiO4. Pequenas variações na orientação da cela de silício
tetraédrico com outra respectiva resulta no desenvolvimento de
nova simetria, produzindo os diferentes polimorfos da sílica,
quartzo, tridimita, cristobalita, coesita e stishovita. Uma
orientação totalmente aleatória destas unidades resulta nas
variedades amorfas do material.
Esse arranjo tetraédrico possibilita a formação de uma rede
cristalina tridimensional infinita por meio do compartilhamento de
todos os átomos de oxigênio de um tetraedro com os grupos
vizinhos. Quando alguns dos vértices do tetraedro não se ligam,
isto é, átomos de oxigênio ficam livres, uma ampla faixa de
possibilidades estruturais se abre, algumas das quais são
encontradas nos silicatos. Nas estruturas para as quais todos os
vértices do tetraedro não são compartilhados, cada átomo de
oxigênio não compartilhado contribui com uma carga negativa para o
grupo aniônico então formado, o equilíbrio dessas cargas dá-se
pela presença de cátions (cargas positivas) na estrutura do
silicato. Na figura, encontra-se a representação esquemática das
possíveis estruturas básicas dos silicatos. Na figura 2,
encontra-se a representação da estrutura cristalina do -quartzo,
da cristobalita e da tridimita.
A sílica a temperaturas ordinárias é quimicamente resistente a
muitos dos reagentes comuns. Além disso, ela pode suportar uma
ampla variedade de transformações sob condições severas como por
exemplo, temperaturas altas. A reatividade da sílica depende
fortemente da sua forma, pré-tratamento e estado de subdivisão da
amostra específica em estudo.
Poeiras contendo sílica livre cristalina que foram geradas
recentemente, como por exemplo, em operações com jateamento de
areia, perfuração de rochas, escavação de túneis e moagem, possuem
maior toxicidade para as células do pulmão comparada com poeiras
mais velhas. Alguns estudos que demonstram isso, descrevem que
esse aumento da toxicidade é devido a geração e presença de
radicais livres na superfície da partícula de poeira. São formados
radicais de oxigênio livre como o ánion superóxido (O2.-) e
radicais hidroxilas (.OH) que são altamente reativos na presença
do cátion ferro bivalente (Fe2+) e traços de outros metais
A solubilidade, as características de clivagem, a morfologia e as
propriedades de superfície da sílica podem influenciar na sua
atividade biológica nos organismos.

Figura 1. Representação esquemática das estruturas básicas
dos silicatos.
(a) Formas de ligação de tetraedro de SiO4;
(b) padrões de ligação química correspondente;
(c) fórmula molecular. Os átomos de Si aparecem ligados somente a
3 átomos de O, o quarto átomo de O ligado ao Si está abaixo do
plano de diagrama.
Fonte: Kirk Otmer

Figura 2. Representações das estruturas poliédricas do
a-quartzo
(a) e da tridimita e cristobalita, que é comum a ambas (b).
Exposição ocupacional
A exposição ocupacional dá-se por meio da inalação, pelo
trabalhador, de poeira contendo sílica livre cristalizada.
Poeira é toda partícula sólida de qualquer tamanho, natureza ou
origem, formada por trituração ou outro tipo de ruptura mecânica
de um material original sólido, suspensa ou capaz de se manter
suspensa no ar. Essas partículas geralmente têm formas irregulares
e são maiores que 0,5 μm
O local de deposição das partículas no sistema
respiratório humano, Figura 1 depende diretamente do tamanho das
partículas:
- as inaláveis - partículas menores que 100 μm,
são capazes de penetrar pelo nariz e pela boca;
- as torácicas - partículas menores que 25 μm,
são capazes de penetrar além da laringe;
- as respiráveis - partículas menores que 10 μm,
são capazes de penetrar na região alveolar.

As poeiras podem ser classificadas de várias formas. No entanto, a
classificação quanto ao tamanho da partícula, têm importância
fundamental quando trata-se de poeira que contem sílica, pois a
avaliação do risco de se desenvolver silicose, depende da
quantidade de sílica livre cristalizada inalada e depositada na
região dos bronquíolos respiratórios e alvéolos pulmonares. Os
fatores determinantes são: a concentração atmosférica de fração
respirável de poeira e seu teor de sílica livre cristalina,
duração da exposição do trabalhador e a suscetibilidade
individual.
Efeitos tóxicos
Os efeitos tóxicos sobre o organismo humano devido a exposição
à poeiras contendo sílica livre cristalina dependem de uma série
de variáveis:
- tipo de exposição: composição da fração
respirável, concentração de poeira ambiental, concentração de
sílica livre cristalina, outros minerais presentes na fração
respirável, tamanho da partícula e o tempo de exposição;
- tipo de resposta orgânica: integridade do
sistema mucociliar e das respostas imunológicas; concomitância
de outras doenças respiratórias; hiperreatividade brônquica.
O caminho que as partículas de poeira percorrem dentro do
sistema respiratório é constituído pelo nariz, boca, faringe,
laringe, árvore traqueobronquial e alvéolos pulmonares, e se
depositam em diferentes regiões dependendo do seu diâmetro
aerodinâmico. Em situações normais, o aparelho respiratório
intercepta a maioria das partículas inaladas, através da ativação
dos mecanismos de defesa e restauração Entretanto, essa capacidade
de auto-proteção e reparo de danos tem um limite. Durante a
exposição ocupacional, a deposição excessiva de poeira, provocada
pela inalação freqüente e contínua desse agente, causa diversos
efeitos adversos dentro do aparelho respiratório. Na região
traqueobronquial a presença da poeira estimula um aumento na
produção de muco para auxiliar o trabalho de condução dos cílios
ali existentes na remoção das partículas. A estimulação prolongada
das células e das glândulas de secreção do muco pode induzir a
hipertrofia dessas estruturas.
As partículas que penetram além do bronquíolo terminal são
rapidamente ingeridas por células chamadas macrófagos, cuja função
é destruir material estranho. Alguns dos macrófagos, com suas
partículas ingeridas, são transportados sobre a lâmina mucociliar.
Outros macrófagos morrem, liberando partículas, substâncias ativas
e restos celulares, que são ingeridas por novos macrófagos, e esse
processo é repetido indefinidamente. A vida do macrófago sob
circunstâncias normais é medida em termos de semanas ou talvez um
mês ou mais. Sua vida é encurtada se a partícula ingerida é
especialmente tóxica, como é o caso da sílica livre cristalina,
que devido às suas propriedades de superfície, mata o macrófago em
um período de horas ou dias. Partículas de poeira que se alojam
nos alvéolos estimulam o recrutamento e acúmulo dos macrófagos
nessa área provocando reações do tecido pulmonar. Estudos têm
demonstrado um aumento nos indicadores de inflamação
principalmente nos pulmões de pessoas silicóticas. A formação de
colágeno acompanha a inflamação prolongada ou crônica na maioria
dos órgãos do corpo. É uma parte da familiar formação de cicatriz
nos tecidos, que pode agir tanto sobre a pele como dentro do
pulmão. A fibrose pulmonar é uma seqüela comum da inflamação
pulmonar crônica. Além disso, as células do pulmão que estão em
contato com o ar, possuem uma alta taxa de reposição ou renovação,
onde as células com a superfície parcialmente danificada são
rapidamente trocadas por células novas. Devido à rápida
regeneração das células do pulmão, há provavelmente maior
vulnerabilidade às alterações carcinogênicas pela presença da
poeira. Com base em todas as considerações anteriores, pode-se
antecipar que a poeira depositada nos pulmões pode induzir:
- pequena ou nenhuma reação;
- hiperprodução de muco e hipertrofia das glândulas de
secreção de muco,
- recrutamento de macrófagos;
- proliferação crônica ou reação inflamatória;
- fibrose;
- câncer.
Câncer
A sílica livre cristalina inalada na forma de quartzo ou
cristobalita a partir de exposições ocupacionais é carcinogênica
para humanos segundo a IARC (International Agency for Research on
Cancer), instituição ligada a Organização Mundial da Saúde.
Um Grupo de Trabalho da IARC analisou uma série de estudos
epidemiológicos realizados em diversos ramos de atividade tais
como: mineração, extração e trabalhos com granito, cerâmica,
olaria, refratário, processos industriais com terra diatomácea,
fundição entre outros.
Nos estudos epidemiológicos que relacionavam silicose e risco de
câncer de pulmão verificou-se que um silicótico possui 1,5 a 6
vezes mais risco de adquirir câncer de pulmão do que um não
silicótico.
Em grande parte dos estudos o aumento do gradiente de risco foi
observado em relação a dose, a exposição cumulativa, a duração da
exposição ou a presença de silicose definida radiologicamente.
O Grupo de Trabalho concluiu que as evidências encontradas nestes
estudos foram suficientes para comprovar o aumento do câncer de
pulmão a partir de inalação de sílica livre cristalina resultante
da exposição ocupacional.
Os mecanismos que induzem a formação do câncer provocado pela
sílica livre cristalizada ainda estão sendo estudados. Existe um
número maior de evidências demonstrando que o persistente processo
de inflamação dos pulmões gera substâncias oxidantes que resultam
nos efeitos genotóxicos no parênquima pulmonar.
Bibliografia
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